quinta-feira, 30 de junho de 2016

226. A história de um passarinho

A história que vos trago hoje foi escrita a partir de uma proposta feita pelo José Teixeira o nosso professor de Teatro no Centro Social e Paroquial Padre Ricardo Gameiro na Cova da Piedade, Almada. A ideia de ter utilizado uma paisagem russa e o nome dos personagens serem em russo, surgiu-me devido ao facto do meu neto Daniel ter começado, por conta própria, a aprender o alfabeto cirílico e ser capaz de ler palavras escritas em russo. Portanto dedico o conto ao Zé Teixeira e ofereço-o ao Daniel. Convosco, partilho-o.




птичка, o passarinho

Em tempos que já lá vão, na longínqua Rússia, junto ao mar Cáspio, havia um passarinho chamado птичка que era um passarinho rabilongo e que sempre habitou nos pomares do senhor Gervasio Gervasovich. Andava sempre de raminho em raminho, de figueira em figueira, nos ramos das oliveiras caspianas, tendo chegado mesmo, em tempos um pouco mais atrasados, a habitar um apartamento, a que ele chamava, orgulhoso, "мое гнездо", no quarto ramo a contar de cima do grande diospireiro no quintal das traseiras. Mas o senhor Gervasio Gervasovich modernizou-se muito. E um dia, quando a folha do limoeiro começou a encarquilhar e as ameixeiras e os pessegueiros se encheram de вшей que é com quem diz piolhos, o senhor Gervasio Gervasovich foi à drogaria da великая битва улица ou seja à Rua da Grande Batalha, comprou pesticidas para matar a moléstia e depois limpou muitos ramos e muitas folhas das árvores e, mesmo no meio do pomar, fez uma grande queimada. O rabilongo птичка, a quem muitos meninos também chamavam o ряби que como todos sabem quer dizer Ondinhas em russo, porque voava sempre como que fazendo ondas no ar, acabou por adoecer. Primeiro com o fumo que respirou da queimada que o ia intoxicando por completo e finalmente com o mal que lhe adveio dos químicos do senhor Gervasio Gervasovich. Até que, quase sem forças para voar, caiu desfalecido no meio do pomar do senhor Gervasio Gervasovich. Quando o homem viu o птичка ali caído, teve alguma pena pois que até tinha sido um neto que lhe ensinara o nome e pensou que ainda iria sentir saudades do seu belo canto. Mas já não havia nada a fazer... E pegando-lhe por uma asa jogou-o cerca fora para cima duma montureira. É então que a gaivota чайка, ao ver ali o птичка, a respirar tão mal, resolveu que hoje a sua refeição não seria de peixe mas sim de um belo bife de passarinho rabilongo. Prendendo-o no bico deu duas voltas no ar, e eis, senão quando, suprema das guloseimas, avistou, quase ao rebentar das ondas da praia das costas do Mar Cáspio, um grande cardume de arenques bebés. A babar do seu curvo bico e voando picado em direção ao cardume, deixou cair o passarinho птичка  no meio daquelas vagas de alva espuma. Logo ali se formou uma conferência de peixes que, ao avistarem птичка  e verificando que não se tratava nem da sua inimiga gaivota чайка, nem qualquer uma das suas irmãs, se reuniu à volta do rabilongo. Todos opinaram, pois todos achavam que eram importantes na conferência suprema de peixes já que todos eram conhecidos pelos seus nomes próprio, o carapau ставрида  e a sardinha  сардина, a lula кальмар  e o goraz лещ, a pescada хек  e o pargo порги. Mas foi o tubarão акула, de altivo porte, que fez com que todos os outros se afastassem à sua chegada, quem ditou a sentença: "Tal como vocês, seus peixes minúsculos, dizia ele que era tubarão, não gostam de ser comida das aves, também nós peixes não devemos devorar passarinhos. Assim determino que esse rabilongo moribundo, que nem sequer está morto e quem sabe ainda se venha a restabelecer, seja já enviado para terra". E foi assim que uma tainha,  de seu nome кефаль se propôs a fazer de prancha e, colocado que foi o passarinho птичка em cima da tainha кефаль pelo focinho inteligente do golfinho дельфин, lá foi o passarinho птичка  a surfar na tainha кефаль até acabar, ainda mais débil do que estava antes, nas areias da praia caspiana.  Mas o destino tem coisas que nos surpreendem e se isto que vos estou a contar não fosse verdade, até parecia mentira. Um menino russo de pele muito branquinha e cabelo loiro, que por ali estava com os seus progenitores, ele russo, ela ucraniana, a brincar no areal depois de mais um dia de aulas, em russo está de bom de ver, ao ver uma coisa estranha na areia, aproximou-se e ouviu um piar muito sumido; tão fraquinho, tão fraquinho era o piar do птичка que o menino nem acreditava que ele pudesse estar vivo. Aos gritos de Отец!, Мать!, pai, mãe, pai, mãe, por favor, Помогите! Socorro! acudam (os putos russos fazem tanta chinfrineira como os putos portugueses), conseguiram os três pegar no passarinho птичка, enfiá-lo num casaquinho de malha vermelho que a mãe tinha feito para o pai assistir no sofá aos jogos do Sport Mar Cáspio e Benfica e dar-lhe algum calor. Chegado a casa, o Aleksandr Alexandrov, assim se chamava o menino, ajudou os pais a secarem o птичка, deram-lhe água por um conta-gotas, tendo contado até dez em russo, один, два, три, четыре, etc, já que o pássaro apresentava sinais de desidratação evidentes e quando este pareceu querer retomar a respiração esmagaram alguns grãos de soja e esfarelaram um pouco de pão de trigo que tinha sobrado de véspera e estava ótimo para esfarelar. Horas depois, o nosso querido птичка já comia e já voava. Três dias depois de tanta preocupação, cuidados e afeto, quando tudo indicava que птичка  já seria o pássaro mascote da família, o passarinho rabilongo bateu asas e saiu janela fora. Todos os dias, o bom do Aleksandr Alexandrov vai ao cimo do morro perto de sua casa,  mal a campainha da escola toca para a saída, olhar para a praia para ver o seu птичка   a voar e a brincar com os tubarões.


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segunda-feira, 9 de maio de 2016

225. Os três planetinhas e o meteorito mau



Para o meu neto Daniel que faz 5 anos no próximo dia 12, uma adaptação livre da conhecida história dos Três porquinhos. Ele que é um admirador do Sistema Solar...



Os três planetinhas e o meteorito mau

Era uma vez três planetinhas que gostavam de brincar na galáxia. A sua brincadeira preferida era o jogo das escondidas. Tão depressa desapareciam e ninguém os encontrava, como apareciam, à noite, brilhantes no firmamento. Por vezes só apareciam pela metade mantendo a outra metade às escuras. Se os restantes astros não os conhecessem bem e não soubessem que quem tem cauda são os cometas e não os planetas, acabariam por dizer que se tratava de planetas escondidos com a cauda de fora. Mas não. Eram mesmo planetas.

Um dos maiores sonhos do planeta mais velho era vir a pertencer a uma constelação, mas depois de consultar muita literatura e perder horas com o iPad a ver youtubes atrás de youtubes, de maneira que até ficava com a cabeça à roda de tanto pesquisar, chegou à conclusão que a casa dele nunca poderia ser uma constelação, pois essa era a organização habitacional das estrelas e não de outros astros, mas apenas uma órbitra da qual não deveria sair sob pena de se vir a estatelar num qualquer buraco negro. Contentou-se, assim, em pertencer a um sistema planetário, girando com os seus irmãos mais novos à volta de uma grande estrela. Giravam tanto, tanto, tanto, em elípticas repetitivas e mesmo à volta deles próprios, como um gato a tentar apanhar a sua própria cauda, que por vezes chegavam a ficar com tonturas de cabeça.

 O planeta do meio sonhava ser cometa. Um dia ainda tentou fugir de casa. Sem que ninguém o visse, durante o dia, pois que à noite seria bastante notado, desde que estivesse acima da linha do horizonte e andasse na sua fase iluminada, foi, pé ante pé, ter com um asteroide amigo dele e perguntou-lhe onde é que poderia comprar uma cauda. Mas não teve sucesso. O asteroide indicou-lhe a barbearia do Sr. Tesourinhas que um dia cortou o rabo ao macaco Chico, mas este já não o tinha, pois que o barbeiro já havia trocado o rabo do macaco por um saco de sardinhas e assim, coitado, continuou a viver na sua posição intermédia, entre o planeta mais velho e o mais novinho, este sim um verdadeiro cabeça no ar, sempre na rua, sempre a tentar sair da órbitra da estrela que o iluminava, um grande desobediente, em resumo.

Pois o mais novo, um planeta engraçadinho, como são engraçadinhas as coisas pequenas, os gatos, os chinchilas, os bebés, era um doidivanas. A alegria dele era andar a brincar na rua com os cometinhas, com as estrelinhas, até mesmo com as pequeninas estrelas cadentes, sem saber o perigo que era quando os pais delas apareciam por perto e todos de mãos dadas, que é como quem diz de órbitas conectadas, cantavam em algazarra no vácuo do firmamento, sem que outros os pudessem ouvir:

"quem tem medo do meteorito mau, do meteorito mau, do meteorito mau?
quem tem medo do meteorito mau, do meteorito mau, do meteorito mau?
lá lá lá lá lá..."

Um dia, o meteorito mau aproximou-se sorrateiro, da roda que os pequenos astros faziam e onde se divertiam, mas a uma velocidade tal, que se não fosse o brilho que tinha e o calor que emanava ninguém tinha dado por ele. Foi tal a ventania cósmica que provocou, que fez com que o jovem planetinha desse duas voltas no ar saísse da sua própria órbitra, deambulasse pelo espaço durante milhões de anos e fosse cair no sistema solar. Ficou bastante para lá de Plutão, e é agora conhecido por Makemake.

Não contente com o que tinha feito o meteorito mau passou também perto da casa do planetinha do meio. Este que sempre sonhou ser cometa e voar dali para fora e, depois do que tinha visto acontecer ao seu irmão mais novo, nem hesitou. Abriu a janela e deixou-se empurrar pelos ventos provocados pela passagem do meteorito. Deu tantas voltas no ar que até a respiração lhe veio a faltar. Infelizmente para ele, apesar de ter esticado os braços, não conseguiu apanhar o rasto provocado pelo meteorito mau e foi tal o esforço que fez que acabou por desmaiar. Quando acordou encontrava-se na órbita do Sol como mais um planeta anão do sistema solar. Tinham-lhe dado um novo nome, chamava-se agora Éris e era um dos maiores planetas anões atualmente conhecidos.

Quanto ao planeta mais velho e também mais experiente, ao ver o que acontecera aos irmãos, fora bem mais preventivo. Pediu ajuda à estrela à volta da qual girava, solicitou-lhe que ela o prendesse ainda com mais força, de tal maneira que o meteorito mau ainda tentou entrar pela cratera de um vulcão que estava no planeta a servir de chaminé mas não conseguiu. Fez tanta força, mas tanta força, este meteorito mau, que estoirou e transformou-se em milhões de partículas incandescentes. É por isso que no mês de agosto se vê nos céus um autêntico festival de estrelas cadentes.   

terça-feira, 15 de março de 2016

224. Vinte de março de um ano bissexto ou a primavera dentro de nós



Naquele dia, Jorge não acordou muito católico... a festa da véspera caíra-lhe na fraqueza pois que, por mor de um trabalho urgente e demasiado exigente, passara o dia inteiro apenas com uma hamburguesa de tofu no estômago. Saíra do escritório diretamente para casa do Pedro, onde os quatro da vida airada, companheiros de muitas peripécias e aventuras enquanto estudantes, o Pedro, o Aires, o Timóteo e ele iriam comemorar qualquer coisa que a sua cabeça, hoje demasiado confusa, não se conseguia lembrar. Bebeu álcoois das mais diversas origens e proveniências, destilados misturados com fermentados, umas tapas de requeijão e outras com trufas francesas em molho de gengibre e nozes, jogou uma partida de bridge até que Madalena, a namorada de Pedro, chegara com umas amigas, oh-lá-lá de aspeto e ousadia, e mais não se poderá contar desta noite de todos os pecados, terá de ser o próprio leitor a imaginar, se é que não está já a congeminar luxuriosos desfechos. Jorge apenas jurava que não podia ser por causa de uma noite mal passada, ou bem, conforme a perspetiva, pois dessas, iguais ou semelhantes na forma e nos conteúdos, tinha ele conta que chegasse, ultrapassando em muito as tabelas da tabuada convencional. O que o martirizava era que na cabeça dele lhe não ocorria às quantas andava, que é como quem diz, não sabia nem de data nem de hora, pois que se vivesse no campo, em vez de num arranha-céus nas Laranjeiras, isso lhe não escaparia. O galo da tia Anastácia se encarregaria de o avisar. Que raio de coisa haveria agora de lhe ter vindo á ideia... o galo da tia Anastácia há muito tinha sido consumido numa cabidela deliciosa. E quanto mais no seu cérebro se discorria em desfile, numa confusão de sambódromo, pratos, ementas e petiscos, maiores eram as voltas que se lhe dava no estômago como se fossem de bêbado as suas sensações. Abriu a janela para tomar ar e a luz radiosa de um dia azul, embora fresco de Março, feriu-lhe de imediato o olhar. Lá fora, onde a jornada ia a meio, um misto de odores a gasóleos queimados do intenso tráfego que povoa o eixo norte-sul e o cheiro enjoativo a jasmim que desponta em canteiros e beirais, preparava-se para ser o detonador. Sem mais delongas, correu desesperado para  a casa de banho, colocou a cabeça quase dentro da sanita e, num impulso convulsivo, expeliu de dentro dele, do mais profundo das suas entranhas, um ramo de malmequeres viçosos, de um branco natureza puro, pontuado no centro a amarelo-gema, como se cada cálice de malmequer fosse uma chávena de leite com vapores de neblina. Todos os anos isto lhe acontecia e o sonho, nesta noite de transição, embora de caraterísticas muito variadas, era recorrente. A primavera despertava sempre de dentro dele onde apenas o bouquet floral variava, mas este ano viera um dia mais cedo por ser um ano bissexto. E lembrou-se, escondido num sorriso dissimulado pelos olhos entreabertos e feridos de primavera, de que no passado regurgitara um ramo de rosmaninho.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

223. Carta ao Futuro (Janeiras)


Querido Futuro,
espero que esta minha carta te vá encontrar em perfeito estado que eu por enquanto cá vou indo, com um pouco de tosse é verdade, mas que não faço a mínima ideia como me encontrarei no dia em que, futuramente, receberes esta missiva.

Tenho grandes dúvidas sobre o Tempo, principalmente sobre o Futuro. Sei que pertences a Deus, pelo que por cá é dito, ou seja, que só a Deus tu pertences, isto a acreditar que no futuro ainda há Deus, uma vez que por cá o tratam tão mal mesmo que lhe chamando outros nomes, desde Jeová a Alá e, se uns passam o tempo a dizer que nunca haverá futuro tratando de acabar o mundo em cada efeméride, outros há que, invocando Alá, acabam com o mundo deles e com o mundo dos outros num simples troar de trotil, mesmo o daqueles que pensavam que um dia iriam ter-te, isto é iriam ter Futuro.

Mas meu caro Futuro, se a Deus pertences que Ele te conserve por muitos e muitos anos porque tu ainda nos vais fazer muita faltinha. Só para te dar dois exemplos da falta que nos farás, não te esqueças de preservar a água porque irá escassear drasticamente, no dizer dos cientistas e trata já de contratar uns pedreiros espaciais, não esperes que sejam outros Futuros teus descendentes a fazê-lo, porque nunca é tarde para começares a tapar aquele buraco do ozono que nos provoca um aquecimento do catano, hoje em dia conhecido como global. E por falar em calor, diz-me lá se por aí voltou a moda do topless que aqui isso já foi coisa do passado e eu estou na idade de começar a ter só recordações. Quero dizer ainda não cheguei à idade provecta como certos amigos meus, mas acho que ao teu colo, isto é pela tua mão, meu caríssimo Futuro, lá chegarei.

Dizem que esperar dias melhores é uma questão de Fé. Pois é, meu caro, se calhar é, mas a Fé e o Futuro, como sabes melhor do que eu, são irmãos. Já agora antes que me esqueça, um beijinho fervoroso para a tua irmã Fé, que tanto me tem dado apoio em dias menos brilhantes. É que a Fé nunca é coisa do passado mesmo que de lá provenha, é sempre do Futuro mesmo que eufemisticamente confundida com a tua outra, a Esperança, graças a Deus também muito boa rapariguinha, e que se sabe que será de todas a última a morrer, provavelmente mesmo depois de ti, não leves a mal, ó Futuro, mana essa a quem costumo dedicar uma dúzia de passas de uva sem grainhas, no virar do ano, para outros tantos ensejos.

Sim meu caro Futuro porque dessa missão também tu te não livras. Se ainda há poucos dias eras Presente e no virar da folha do calendário já eras Passado, é nesta tua reencarnação como Futuro que depositamos os nossos ensejos. Não, não te apoquentes, ensejos não é um palavrão e muito menos lixo, é uma coisa boa, não é fazer de ti nenhum aterro sanitário nem forno de coincineração. Os nossos ensejos, sabemos nós e tu o confirmarás quando perderes o ceticismo, tu e os que são céticos em relação a ti, Futuro, ficarão muito bem à tua guarda. Não é por acaso que te escrevo, já deverás ter reparado.

Pois a partir de hoje, designo-te testamentariamente fiel depositário dos meus ensejos. Que outra demonstração de confiança poderia eu dar a outro alguém ou pedaço de tempo? Só tu Futuro mereces que te confie todos os meus desideratos.
Sei que nestes dias de início de ano andas sempre muito atarefado. Quanto mais não seja para salvaguardares as tuas queridas manas, a Fé e a Esperança para que não continuem a ser vilipendiadas por quem nada quer de bom para ti e para os teus, mas também a organizares espaço para acomodares as Esperanças de alguns outros e as Fés de muitos mais. Em cima de ti recai todo este ónus. Mas não te preocupes, sempre assim foi e sempre assim será.

Tens, é óbvio, a tua quota parte de responsabilidades. Tivesses em tempos, quando te conheciam por Passado e mesmo mais recentemente quando te rebatizaram de Presente, cuidado um pouco mais daqueles por quem deverias ter zelado e te desleixaste, quer por influência de bacocas demagogias, quer por interesses camuflados, pouco preocupados a não ser com o seu próprio Futuro, como se o Futuro pudesse ser uma coisa privada ou privatizável, e outro galo cantaria, quero dizer Futuro, que teria uma vida bem mais descansada. Mas tu deixaste que isso acontecesse, inadvertidamente é certo em algumas ocasiões, mas absolutamente conivente em outras. Sei que de algumas te arrependes mas o que te peço meu caro Futuro é menos arrependimento e mais ação. O Futuro não pode ser um lamechas muro de lamentações, precisa de ser ativo. Eu em próxima carta tentarei dar-te algumas dicas e quiçá mesmo diretivas. Bem sei que esta frase já te está a fazer pensar que agora sou eu a querer privatizar o Futuro e a tentar tratá-lo como meu. É capaz. Alguma parte será assim, mas debateremos profundamente as questões e aquilo que tu Futuro achares que não é o património comum que asseguras, aceito que te recuses a fazê-lo para mim.

Escrever-te-ei de novo noutra ocasião. Cumprimento às manas.

PS. Olha, se não achares que isto é meter uma cunha, trata-me bem da saúde. Quanto ao dinheiro, um dia explico-te o que é isso do Euromilhões. Beijinhos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

222. Bolo de Natal



Ingredientes:

Um fardo de palha
Um burro
Um bovino de raça barrosã
Um homem
Uma mulher grávida
Uma garrafa de coca-cola
Um Pai Natal barrigudo
Um centro comercial
Um menino descalço
Um menino calçado

Tempo de preparação: menos de 24 horas

Numa barraca qualquer, entre Nazaré e Belém ou mesmo na margem sul, desapertam-se com cuidado os arames do fardo, não vá o vento tecer indesejáveis sopros, e espalha-se a palha pelo chão. Cuida-se para que o burro esteja de ventas tapadas pois se a cheira lá se vai a cama da criança. À vaca, quiçá boi, aconselha-se que esteja de dieta, que só coma produtos à base de soja transgénica, para que esta também não desate a ruminar palha seca de centeio e forragem.

Enquanto a palha assenta, um dos segredos deste preparo, dão as dores do parto à mulher grávida e o homem que se chama José desata aos Ai Jesus onde é que eu me vim meter e puxando dos galões de mecânico encartado mas que não passa faturas, Ainda se fosse uma motorizada ronceira a deitar fumo negro pelo escape ainda vá lá e, tentando imitar o outro, Ou até mesmo a fazer uns armários novos de cozinha, mas assim de repente a servir de parteira é que não sei mesmo para onde hei de me virar.

Uma meia hora depois da palha espalhada deita-se a mulher num cantinho confortável, onde o bafo de vaca, quiçá de boi, pois que o sexo não foi determinado nos ingredientes, a aqueça, já que este mês de Dezembro não está muito chuvoso, nem muito frio, mas mais logo, a noite não é de se fiar.

Entretanto enquanto o homem anda de um lado para o outro, para não arrefecer, já  que a caminhada o manterá na temperatura ideal, Ai Jesus, ai Jesus, acendam-se as luzes do centro comercial pois já à sua volta vai um corrupio de gente babada por tão deliciosa receita. Só falta mesmo a mulher, que por acaso se chama Maria, dar também ela à luz, que as montras já deram.

Coloca-se o menino calçado a chupar duas palhinhas numa coca-cola enquanto a mamã o senta  ao colo do Pai Natal barrigudo, de vermelho vestido como o rótulo da bebida, sem perigo de se queimar pois este é inofensivo, não é pedófilo só porque anda com as criancinhas ao colo. Quando esta mistura, menino calçado, coca-cola, Pai Natal barrigudo, estiver quase pronta começar-se-á a atingir o ponto consola PS4, que o menino calçado pediu. Quem não se consola, é o José que ainda anda de um lado para o outro aos ais. Reservemos então José para mais tarde, mas nunca menos que morno.

Preparemos agora em banho Maria a finalização do prato, perdão do parto. Deixem-na gritar agora por uns momentos, tragam água quente para a lavar e para lavar o menino descalço que vai nascer, há de chamar-se Francisco que é o nome do avô,  enrole-se o menino descalço nuns panos para que não arrefeça. Encoste-se o produto final ao bafo da vaca, quiçá boi, e do burro que não tocou na palha.


Lá fora, enquanto os vossos companheiros ou companheiras pensam nas anjinhas celestiais de Victoria Secrets ou sonham com os Bombeiros de Setúbal e entoam mentalmente um jingle bells, com um copo de whisky e duas pedras de gelo, ou com um licor Beirão, vá à varanda e veja a nova estrela que nasceu no céu. É que, se nasceu descalço, no meio da palha e é um menino, então está pronto o Natal.  Provem porque o nascimento é mesmo uma confeção deliciosa.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

221. A bruxa Josefa



A bruxa Josefa

Sorrateiramente, sem dar os bons dias a ninguém saía Josefa de casa todas as manhãs, bem cedinho. Sem dar os bons dias a ninguém era uma maneira de dizer porque ela, pela sua própria boca, eram as outras pessoas lá da aldeia que lhe viravam a cabeça e fingiam não a ver. Estava sempre preparada para uma boa intriga e então com a vizinhança nem se fala. Sabia-se que ela era invejosa, trapalhona, mau-caráter, ensarilhadora  de perfeição, e até se afirmava à boca pequena, não fosse o Diabo tecê-las, que aquela mulher, a Josefa da Arminda, que Deus lá tenha a alma em descanso pois era uma santa de uma mulher e logo houvera de ter tido uma filha assim, era uma bruxa. Na aldeia, onde outras pessoas gostam também de fazer meia e liga a par das conversas sobre a vida alheia não havia quem não falasse mal de Josefa, poucas lhe queriam bem, pois gente de Satanás, longe da porta, longe da porta. Houve um casamento que se desfez com o noivo já no altar da igreja, uma jovem que se afogou na ribeira, sem que se lhe conhecessem problemas de cabeça, dois pastores que dispararam um no outro por causa da morena Jacinta, ainda por cima desdentada, uma manada de vacas solta a meio da noite que invadiu as estradas e fez com que o jipe da GNR se tenha despistado e caído numa vereda, a mulher do Dr. Bernardes, vejam lá tão bom médico, coitado, que fugiu com um caixeiro viajante e tantos outros sarilhos à conta das intrigas que diziam serem obra da Josefa que se aqui se fossem a relatar todas, qualquer um de vós arrepiaria caminho antes de passar às portas daquela aldeia, que é como quem diz, passariam a léguas. Todos os dias Josefa saía manhã fora, direita aos campos, ninguém sabia de como se sustentava ou quem a sustentaria, pois homem nunca fora visto a galgar-lhe a cancela e só voltava quando a  alcofa de vime abarrotava de ervas e ervinhas, arbustos e bagas, algas da ribeira e até de fungos que se diriam incomestíveis. Houve quem jurasse tê-la visto chegar, um dia, com uma cabeça de porco sangrante, ela que não criava bichos e ninguém nas redondezas se queixara de roubo, dentro da alcofa e outros que não, que não seria porco, mas também que sim que poderia ser e então galinhas nem se fala pois que raro não era que apareciam nos galinheiros com as cabeças cortadas, principalmente as pretas e pedreses, coisas do escuro da noite e aquilo, jurava-se, não era coisa da zorra, antes obra do demónio.

A verdade, verdadinha , é que o cheiro das sopas e dos caldos que provinha da casa da Josefa, daquele caldeirão fumegante, supostamente negro como seriam negras as rezas da misteriosa mulher, perfumes silvestres à mistura com cheiros de enchidos de carne cozida, deixava todos os fins de tarde a aldeia hipnotizada. E no meio de cada casa, nos quintais ou azinhagas, parados e petrificados como que por encanto, porque se sabe já que Josefa é uma mulher especial que além de intriguista é uma verdadeira bruxa, pareciam mais mortificados do que os mortos, casais e filhos de casais, casais sem filhos, homens e mulheres solteiros e solteiras, novos e velhos e outros muito velhos, com as cartas da bisca na mão sem a poderem jogar nas mesas de granito da taberna, crianças em frente a uma bola ou um arco ou um pião sem se mexerem, os músicos num mudo e triste silêncio numa estranha estatuária em cima do coreto, cães que não ladravam, gatos que não miavam, galinhas que não cacarejavam, alimárias que não zurravam. Na aldeia só se ouvia a voz monocórdica e zumbida de Josefa a cantar e as sombras de uma dança à volta do caldeiro e ao longe, lá muito longe nos confins da serra, quando o vento era de feição o som dos lobos a uivarem.

© Vítor Fernandes

sábado, 27 de junho de 2015

220. Em defesa do Acordo Ortográfico de 1990.


Esta será a minha última intervenção pública sobre o AO de 1990. Não mais me pronunciarei sobre ele, nem em artigo de opinião, nem em comentários às publicações pró e contra que são feitas nos mass media incluindo as redes sociais. Não participo em cruzadas. Reservo-me o direito de em tertúlias de amigos, poder defendê-lo em off, sem qualquer azedume e cuja discussão culmine sempre com um "Viva a língua portuguesa!" e, de preferência, com uma saudação num copo de bom vinho tinto. Português, é claro.

Até ao início do século XX, tanto em Portugal como no Brasil, seguia-se uma ortografia que, por regra, se baseava nos étimos latino ou grego para escrever cada palavra: phosphoro (fósforo), lyrio (lírio), orthographia (ortografia), phleugma (fleuma), exhausto (exausto), estylo (estilo), prompto (pronto), diphthongo (ditongo), psalmo (salmo), etc.

(retirado da wikipédia)

Em 1910, logo após a implementação da República foi criada uma comissão, onde, entre outros, pontuavam , Carolina Michaëlis, Cândido de Figueiredo, Adolfo Coelho, Leite de Vasconcelos, vultos incontornáveis da cultura portuguesa, para que se estabelecesse uma ortografia simplificada a usar no ensino e nas publicações oficiais. Em 1 de Setembro de 1911 a Reforma Ortográfica é oficializada e prevista a sua implementação até 1913.

Tal como hoje, houve grandes escritores e poetas a insurgirem-se contra esta reforma. De Alexandre Fontes, Teixeira de Pascoaes a Fernando Pessoa não se deixaram de ouvir comentários, críticas e a escreverem-se peças como a que transcrevo da autoria de Fernando Pessoa:

"Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a lingua portugueza. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse".

Ora a verdade é  que a maioria da obra de Fernando Pessoa é publicada a título póstumo (em vida publicou quatro obras, que apesar de a "sua pátria ser a língua portugueza", ou talvez por isso, três delas fê-las publicar em inglês), acabaram por ser publicadas mais de uma vintena de anos após a Reforma e, como tal, segundo a "nova" grafia. Está obviamente por saber se tivessem sido publicadas com a grafia anterior a 1911 se Pessoa teria sido lido como foi ou se se continuasse a publicar nessa mesma grafia haveriam mais do que colecionadores a adquiri-la. Mas isto é especulativo e não vou por aqui.

Dizem os anti-AO de 1990 que este Acordo foi imposto por decreto. Se isto não fosse uma coisa séria daria vontade de rir. A Reforma de 1911 foi imposta por decreto a posteriormente o AO Luso-Brasileiro, é assim exatamente que se designa, de 1945 foi  igualmente imposto pelo decreto-lei 35228 de 8 de dezembro de 1945.
"Está bem", dirão alguns, "foram todos por decreto lei mas agora temos fatos e não factos, espetadores e não espectadores". Pois temos se escrevermos no Brasil. Basta ler o AO em vez de vir para as redes sociais escrever amén! Temos factos e espectadores em Portugal. Porque se a discussão é a perda da etimologia latina e grega então remeto-vos de novo para Fernando Pessoa ou mais simplesmente para Teixeira de Pascoaes "Na palavra lagryma, (...) a forma da y é lacrymal; estabelece (...) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio... Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal".

Se é desta forma de escrever português que os atuais anti-AO têm saudade (saudade do que nunca escreveram, claro) então sim, dou-vos a minha palmada nas costas de solidariedade, embora não lacrymeje convosco. Agarram-se então a quê os que estão contra o acordo? Já vi muitos brasileiros chorarem a perda do trema. Deixam de escrever lingüiça e cinqüenta. Oh que drama! Querem ver que passarão a contar de quarenta e nove para sessenta e não mais matarão porcos? E os portugueses? Caem do hífen abaixo?

Pois eu, meus amigos, pagarei a mesma multa se for em excesso de velocidade numa auto-estrada ou numa autoestrada. Dessa ninguém me livra e que se lixe o hífen. E já agora, daqui a trinta anos, quando todos passarmos a escrever (ou não) segundo o novo AO, quero ver todos os meus amigos escritores que hoje arvoram a defesa da língua de Camões a escreverem como se escrevia no século XVI. Eu terei dificuldade em ler-lhes as suas belíssimas obras, confesso.


PS. Já se esta raiva anti-AO for ideológica, aí não tenho opinião. Há, de facto, muita gente saudosa de Salazar e dos seus decretos-lei. Eu por mim dispenso.